A MEMÓRIA DE XAPURI ATRAVÉS DAS MANIFESTAÇÕES

LITERÁRIAS DO INÍCIO DO SÉCULO XX

 

Maria Alzenir Alves Rabelos Mendes - UFAC

 

 

As manifestações literárias podem ser concebidas como emanações do espírito do artista, em especial, por não pertencerem a nenhuma escola literária ou a modismos de época. Portanto, constituem-se em autêntica revelação da identidade de um povo nos seus aspectos culturais, étnicos e morais, possibilitando, desse modo, o resgate e a preservação da memória cultural dos mais diversos povos formadores de qualquer sociedade. A sociedade em questão é a da cidade de Xapuri, fundada em 1902, no Vale do Acre, no seio da floresta amazônica.

De acordo com a lenda, no início, quando a região era habitada pelos indígenas (Xapuris, Catianos, Moneteris e outros), só havia o “Chapury”, rio que deu origem ao nome da cidade. Até que numa noite o Aquiri irrompeu violentamente com suas águas barrentas, nascendo o Rio Acre. Para que os nativos pudessem distinguir um rio do outro, passaram a chamar o “Chapury” de “Rio Antes”. No entanto, os povos da raça branca que ocuparam o lugar, após a dizimação da raça indígena, preservaram o nome de origem. A cidade construída às margens do “Chapury” recebeu o nome dos primeiros povos a habitarem ali, os índios Xapuris.

É de fundamental importância frisar que os novos habitantes encontravam-se ali atraídos pela riqueza e excentridade da selva, divulgados através dos relatos dos espanhóis, portugueses, franceses, holandeses e outros que se aventuraram em expedições na Amazônia, desde o período do Brasil Colônia.

Mas, foi somente no final do século XIX que chegaram às terras acreanas os homens que buscavam as “árvores que choravam leite”, as seringueiras que eram abundante em todo o Acre, e de excelente qualidade na terra dos Xapuris. A riqueza propiciada por essas árvores “choronas” atraiu o capital internacional, mobilizou povos de lugares longínquos, brasileiros e estrangeiros, e assim formaram em poucos anos uma sociedade multifacetada, produtora de uma arte literária difusa e contraditória frente à natureza imponente da selva.

Após a Revolução Acreana (1902), Xapuri, livre do jugo boliviano, tornou-se o maior centro econômico e cultural do Acre. Até 1920, sediava o maior centro comercial da região. Era também ponto de referência para os brasileiros, em especial, para os nordestinos em busca de sobrevivência. Entre os estrangeiros, encontravam-se os portugueses, os alemães, os italianos, os franceses, os sírios e os libaneses.

Esses povos trouxeram consigo singularidades da cultura a que pertencem, transplantaram-na e divulgaram-na, principalmente através da imprensa, que veio com a Maçonaria em 1907. Trouxeram da Alemanha as máquinas impressoras (ALAUZET EXPRESS)[1] e as instalaram nos fundos da Loja Maçônica Acre, de onde saíram os periódicos com as notícias locais, nacionais e internacionais. Estas últimas, chegavam via fluvial, muitas vezes com um mês de atraso.

Mas, o que mais chama a atenção nesses periódicos[2] é a qualidade dos textos de natureza literária. Surpreendem o leitor que talvez espere encontrar um linguajar trivial e grosseiro, ou temáticas vinculadas apenas àquele universo isolado da civilização, portanto alheio ao que acontecia nas metrópoles.

A surpresa é ainda maior quando se abre o acervo da UFAC, referente a Xapuri, e se descobre que naquelas duas primeiras décadas circularam na pequena cidade de 8.137 Km2 e 19.500 habitantes, 23 periódicos diferentes, constando até um jornalzinho literário O Paladino (1913-15), dirigido pelo filho de portugueses e descendente da Princesa Isabel, o Advogado e Poliglota Antônio Carneiro Meira.

Nos demais jornais, pode-se encontrar poemas escritos em francês à moda parnasiana, prosa poética em que se mesclam Simbolismo e Parnasianismo, porém impregnados pela tristeza e a saudade do artista distante da pátria, e da mulher amada. Esse estar ausente faz com que a musa inspiradora que, ao gosto romântico, seria a pátria ou a mulher, seja a própria saudade, a dor de estar isolado[3].

 

Hora triste e misteriosa, eu amo-te: tu falas à minha alma... enebriam-me o teu misticismo e a tua melancolia, bem sabes as mágoas que sofro, as dores do meu coração, alanceado de intérminas saudades.[4]

Muitas vezes, até mesmo os brasileiros mostram-se ressentidos com a sensação de estarem despatriados.

Ao se abrir o bloco das crônicas, em especial, as escritas no período da Primeira Guerra Mundial, pode-se encontrar textos que fazem apologia à Alemanha: “Oh! Alemanha escuta, atende ao meu apelo; tu és bendita entre todas as nações.”[5] Ou ainda crônicas humorísticas em que os escritores satirizam os “Coronéis-de-Barranco”, empedernidos pelo poder do “ouro negro” (a borracha), m as expostos à gafes, viajando na primeira classe dos Loydes ingleses. Há também crônicas, em que o autor nivela o seringueiro a um elemento da mitologia grega: “neste particular o seringueiro é uma espécie de sísifo”. Ou seja, um ser subordinado a forças superiores que não consegue sair da condição a que foi destinado.

A série dos contos xapurienses é o que melhor identifica o mosaico cultural daquele povo. Os contos vão desde traduções assinadas por autores sírios e franceses, a adaptações de obras clássicas por brasileiros, como Alma Geométrica, de Troyano, cujo conteúdo gira em torno da história do amor de Helena e Páris, personagens da Ilíada de Homero.

Merece destaque a presença dos contos árabes: Mas não é simbólico, de Baxir Chaul (1914), de conteúdo machista, fala sobre um marido que executou a esposa enquanto ela rezava diante do túmulo de um homem. Em alguns contos, misturam-se traços da cultura portuguesa e brasileira, piadas de portugueses e de bêbados. Em outros, animais de outras terras, convivem com os da amazônia. No conto A prisão de um leão, de Johainat, um leão longe de sua terra é logrado e preso por uma mucura, em seguida, solto por um coatipuru, o que induz o prisioneiro a tirar da experiência uma lição de vida, nos moldes das fábulas de La Fontaine: “O bosque em que mucura prende um leão e o coatipuru o solta, não serve para ele morar, nem mesmo para uma simples caçada

No tocante às cartas, concebidas também como manifestações literárias, em muito contribuem para o desvelamento de fatos ignorados pela história oficial. A princípio, apresentam-se como um meio de comunicação entre pessoas que compartilham idéias comuns. Depois à medida em que se tornam mais freqüentes nos jornais da época como Carta Aberta, adquirem função crítica, denunciam através do humor e da sátira o caráter dos representantes do povo. Os escritores dessa espécie de texto, escondem-se atrás de pseudônimos, mas, revelam-se pela linguagem, pelo discurso próprio aos que têm a consciência social e política treinada pela vivência e pelo saber

Em síntese, embora essa produção ainda não seja inserida num sistema literário, não pode ser relegada ao silêncio, e sim trazida ao público para que, tal como ocorreu com as manifestações literárias do Brasil Colônia, integre-se à Literatura Brasileira como um todo, estabelecendo contato entre autor, obra e leitor através do tempo, e desse modo, preservando a memória e a cultura nacional.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

 

CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975.

MOISÉS, Massaud. A Criação Literária. São Paulo: Cultrix, 1984.

TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.



[1] Conforme o Livro de Registro do IBGE.

[2] Constam nos arquivos do CDIH da UFAC (Centro de Documentação e Identificação Histórica)

[3] A temática predominante da prosa poética da época é a saudade.

[4] A.S.C. A Imagem. jornal o Acreano. Xapuri, 1907.

[5] GAMA, Farias. Acreanadas. O último recurso. Jornal Comércio do Acre. Xapuri, 1916.